O ERRO DE QUERER ESCAPAR DO DESERTO

Tendo Faraó deixado ir o povo, Deus não o levou pelo caminho da terra dos filisteus, posto que mais perto, pois disse: Para que, porventura, o povo não se arrependa, vendo a guerra, e torne ao Egito.” (Êxodo 13.17, RA)

Ha coisas que não aconteceram ontem, mas a gente lembra como se fosse hoje. Por isso, guardo vívida a memória da dor de um velho amigo. Era uma dor que enchia a alma e transbordava para o rosto. Quem o havia conhecido sempre sorridente, ficava chocada ao vê-lo de semblante abatido, como um peregrino vagando em um deserto, seguindo para lugar nenhum. Dentro do possível, eu procurava mostrar empatia e me inteirar do seu sofrimento, mas, como nos diz Salomão, “O coração conhece a sua própria amargura’ (Pv. 14:10). As pessoas podem até querer dividir conosco as nossas cargas, mas, no final das contas, a plena realidade das dores que afligem nosso coração, será sempre um segredo indecifrável, compreendido apenas por Deus e por nós mesmos.

Quem conhecia um pouco a história, entendia a razão do sofrimento. Era um típico caso de uma “esperança que se adia, que faz adoecer o coração” (Pv. 13:12). Aquele rapaz, ao longo de anos, sonhava e trabalhava para ter uma família. Até que, já com certa idade, realizou seu sonho. Mas, infelizmente, dentro de pouco tempo, percebera que o sonho de ter um lar estava escapando por entre os dedos. A vida conjugal, salvo por episódios de paz e conforto, havia se tornado um pesadelo. Ele nunca imaginou um divórcio como parte da sua história, mas era óbvio que as coisas caminhavam para esse fatal desfecho.

Depois de alguns anos sob o calor da provação, cansado da caminhada, meu amigo fez uma resolução: decidiu firmemente que iria sair do deserto por conta própria. Concluiu que já havia sofrido demais, estava na hora de dar um basta na situação, estava na hora de encontrar um atalho que encurtasse o caminho da provação. A primeira consequência: passou a descartar os conselhos bíblicos, que antes ouvia com atenção. Ele sabia que estava indo contra a vontade de Deus, mas sua vontade de sair do deserto prevaleceu. Que Deus podia transformar o deserto em uma escola de bênção e santidade, ele não tinha dúvida. No nosso último encontro, antes de decidir que queria terminar o casamento, ele me disse: “Pastor, eu não posso mais esperar… já tentei de tudo. Estou cansado e desacreditado. Eu sei que estou indo contra a vontade de Deus, mas eu quero me livrar desse deserto.

A Palavra de Deus está repleta de ensinos que nos mostram que Deus, na Sua infinita bondade, muitas vezes traça a rota de nossas vidas pelo deserto, para que ali aprendamos a ser totalmente dependentes dEle. Foi assim quando o SENHOR retirou Israel do Egito. Seguir pelo litoral seria muito mais agradável, alem de ser o caminho mais curto. Se o SENHOR tivesse feito uma pesquisa quanto à rota preferida, o caminho do deserto teria perdido feio. Mas Deus sabia que o caminho mais curto, embora muito mais fácil à primeira vista, estava cheio de inimigos, e o povo ainda não estava pronto para enfrentá-los. Atalhos são atrativos na hora da provação, mas podem ser a estrada certa para o desastre final.

Por causa disso, pensando no melhor para Seu povo, sem fazer pesquisa nem perguntar opinião dos viajantes, Deus simplesmente levou Seu povo pelo deserto. Porém não os deixou sós, mas foi junto com eles. No calor, Deus era sombra; no frio e na escuridão, o SENHOR era luz; na sede, Ele fazia brotar água da rocha; na hora da fome, enviava o pão do céu. Era um deserto repleto da providência de Deus. ali, o povo experimentou maravilhas divina que não teriam visto se tivessem seguido pelo caminho mais ameno.

As maiores lições de fé e dependência do SENHOR só aprendemos quando nos matriculamos no curso: “Sobrevivência Espiritual no Deserto da Provação”. Na vida cristã, quando mais nos achamos desprovidos, necessitados e incapazes, mais somos enriquecidos pela presença e pela provisão de Deus. O que não podemos jamais esquecer é que Deus não promete destruir o deserto pelo qual andamos, mas nos dar alegria e satisfação nEle, apesar da dor que enfrentamos. A provação pode até continuar, mas nossa forma de lidar será bem diferente. Deus sabe que, somente quando estamos no deserto, chegaremos ao ponto de tirar os olhos de nós mesmos, podendo, pela fé, declarar: “Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre.” (Salmo 73.26)

O medo das incertezas de seguir pelo deserto pode nos levar a seguir por atalhos, que serão piores que o próprio deserto. O caminho certo nem sempre é o mais curto, nem o mais agradável aos nossos olhos. O melhor caminho é aquele por onde Deus nos quer levar. Se para chegar à terra prometida tivemos que cruzar um deserto, sigamos tranquilos. Ele segue conosco. Algumas coisas e sensações podem nos faltar, mas com o SENHOR ao nosso lado, nada nos fará falta.

Quanto ao meu amigo, quer saber como terminou a história? Nem tudo saiu como ele pensava. O atalho do divórcio, no primeiro momento, trouxe algum alívio, mas, ao contrário do esperado, causou uma terrível sequidão na alma. O caminho mais curto se tornou uma longa jornada solitária, longe de Deus e dos irmãos. A vergonha da desobediência e o peso da culpa por ter rejeitado os conselhos do SENHOR fizeram com ele se tornasse um peregrino solitário. Antes ele sofria, sendo confortado por Deus e pelos irmãos. Agora, continuava sofrendo, não tendo o conforto nem de Um, nem dos outros. Então, como tudo terminou? Bem, ainda não terminou. Nesse momento ele está consciente do seu erro, arrependido, renovando sua esperança e pronto a seguir a direção de Deus. Literalmente, ele declara: “Meu erro foi querer alívio, sem permitir que o ciclo do deserto se consumasse.” Que Deus tenha misericórdia dele e de nós também.

A serviço do Mestre,

Pr. Jenuan Lira.

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