CRIADOS PARA MATAR: A SENSIBILIDADE MORTAL DOS PEQUENOS ASSASSINOS (II)

Porquanto dizeis: Fizemos concerto com a morte e com o inferno fizemos aliança; quando passar o dilúvio do açoite, não chegará a nós, porque pusemos a mentira por nosso refúgio e debaixo da falsidade nos escondemos.” (Isaías 28.15)

Não sou profeta, nem filho de profeta e tenho aversão às ‘profetadas’ modernas. Mas, ao declarar que o pequeno matador de Goiânia fez na escola, estou apenas antecipando o fruto ‘natural’ que brota de toda sementeira maligna. A sorte está lançada: um menino resolveu se vingar do tal do bullying matando os colegas, a mídia fez seu papel de espalhar a ‘boa notícia’ e muitos meninos foram despertados para uma possibilidade nunca antes considerada. Para os duvidosos, basta lembrar que, dentro de uma semana, tempo que separa este artigo do anterior, aqui mesmo em Fortaleza, já ouvimos de pelo menos uma situação de um aluno conduzindo uma pistola dentro da mochila.

Já faz algum tempo que os chamados ‘lobos solitários’  quer sejam islâmicos, americanos ou brasileiros passaram a compor uma companhia de assassinos em série. Em Sutherland Springs, sul do Texas, nem uma pequena Igreja Batista com cerca de 50 membros escapou da barbárie. Também, na América e em várias partes da Europa, tornou-se moda a nova modalidade de assassinato por meio de caminhões ou vans, que avançam sobre dezenas de pedestres. Em tudo isso, obviamente vemos os sinais do incremento da malignidade em nossos dias. Até aí, nada muito novo. Cristo falou da multiplicação da maldade nos últimos dias. No entanto, quando a escalada do mal progride a ponto de vermos crianças na lista de serial killers, podemos estar certos de que estamos chegando ao fim da linha. Cabe aqui, portanto,  uma análise um pouco mais profunda. Sabemos que crianças do passado eram tão pecadoras quanto as do presente, mas também sabemos que os pequenos pecadores do passado não matavam os colegas quando eram chamados, por exemplo, de fedorentos.

Embora estejamos andando aqui adentrando os domínios da obscuridade, uma olhada nos primórdios da história humana poderá nos dar, ao menos, um norte. O primeiro assassino foi o maligno Caim, como lemos em Gênesis 4. Amaldiçoado por Deus, Caim deveria ser um sofrido peregrino errante pela terra. Mas, como o mesmo ímpeto rebelde com que atacou seu irmão, o primogênito de Adão e Eva resolveu desenvolver meios para reverter o castigo que pesava sobre ele. Ao invés de viver como nômade, Caim criou uma cidade. Essa foi uma idéia maliciosa, que iria favorecer à proliferação da maldade. Um conglomerado de homens rebeldes contra Deus unidos no mesmo espaço social poderá fazer a perversão evoluir desenfreadamente. As cidades logo se tornariam chocadeiras potentes dos ovos da perversão.

Criados nesse ambiente de interatividade maliciosa, os descendentes de Caim logo mostraram a que vieram. E, assim, em Gênesis 4.17-26, somos apresentados a Lameque, o segundo homicida da história humana. Mas, como normalmente acontece, o discípulo vai além do mestre. Lameque, não matou apenas um homem, mas dois, e se vangloria desse feito ‘heróico’ perante suas mulheres. Tal fato parece insignificante, mas a verdade é que entre o pai e o filho a taxa de homicídio subiu cem por cento.

Olhando a civilização criada pelos malignos descendentes de Caim, nota-se que eram extremamente avançados em vários aspectos. Eram pecuaristas, artistas de renome e já dominavam a arte da siderurgia. Eram pessoas avançadas em termos econômicos, intelectuais, sociais e tecnológicos. Qual o problema? A temível relação entre o desenvolvimento cultural e a presença da morte na sociedade. Duas pessoas podem ter o mesmo desejo de matar, mas a execução dos seus planos dependerá dos recursos disponíveis. Nesse sentido, quanto menos desenvolvida, mais segura será uma sociedade. Ou seja, não existe saída para o nosso mundo. Somos desenvolvidos demais para continuar vivos.

A semelhança dos fatos não é mera coincidência. Assim como Caim, por palavras e obras, treinou Lameque para matar um homem que pisou no seu pé, as crianças de hoje são criadas para matar o colega que lhes proferir um insulto. Os tempos são diferentes, mas os pressupostos pedagógicos são os mesmos: não deixe alguém lhe diminuir, não permita que um colega tenha melhor nota, não leve desaforo para casa. Se lhe chamarem de orelhudo, dê um soco. Se repetirem, dê um tiro.

Pais mimados e filhos endeusados formam uma combinação mortal.  Por isso, o suicídio já há muito está ceifando vidas cada vez mais jovens. Os mais vacilantes amam a si próprios, enquanto os que foram melhor treinados farão o serviço completo: antes de matar a si mesmos, matarão o maior número possível. Seja como for, a triste verdade é que a morte avança entre nós. Às vezes lenta, às vezes rápida; às vezes solitária, às vezes compartilhada. Mas o espetáculo termina sempre da mesma forma. Quando as cortinas descem e as luzes se acedem, a platéia está terrivelmente devastada, afogando-se nas  próprias lágrimas. Esse é o enredo… e assim segue a humanidade!

O quadro é o seguinte: sociedade avançada, assassinos à solta, egos inflados, filhos importantes demais para sofrer bullying… Já vi esse filme… e o final é triste, muito triste.

Deus tenha misericórdia de nós!

 

A serviço do Mestre,

Pr. Jenuan Lira.

 

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