CRIADOS PARA MATAR: A SENSIBILIDADE MORTAL DOS PEQUENOS ASSASSINOS

Porquanto dizeis: Fizemos concerto com a morte e com o inferno fizemos aliança; quando passar o dilúvio do açoite, não chegará a nós, porque pusemos a mentira por nosso refúgio e debaixo da falsidade nos escondemos.” (Isaías 28.15)

 

Era o dia 20 de outubro de 2017, por volta da 11:40 da manhã, numa escola infantil na cidade de Goiânia. Aproveitando os últimos momentos de concentração da turma, antes da já esperada agitação que antecede o toque final, a professora explicava o dever de casa. O que ela não sabia era que, para alguns dos meninos, não haveria amanhã. Alguns deles não teriam chance de fazer as tarefas, nem sequer ir à escola, pois, enquanto a professora preparava as crianças para a vida, um colega as queria destinadas à morte. E foi assim que, de posse de uma pistola e bastante munição, um menino de 14 anos levantou-se da carteira, bradando: “Vocês vão morrer”. A seguir, sem perda de tempo, descarregou os projéteis da sua ira e da sua arma contra os colegas. Dois morreram na hora, outros quatro ficaram feridos, dentre os quais uma garota que ficou paraplégica.

Enquanto a mídia nos informa que o garoto assassino afirma que o desejo de matar os colegas nasceu por causa do bullying que sofria, não tenho como não fazer um paralelo entre os meninos do passado e do presente. Trago vivas na lembrança as troças que fazíamos e apelidos que dávamos uns aos outros. Minhas orelhas salientes, nariz avantajado e a magreza fenomenal eram o mote perfeito para uma lista interminável de ‘títulos honoríficos’, com os quais meus colegas me agraciavam. Os apelidos iam de esqueleto da maçonaria (diziam que tinha um dentro da loja maçônica da nossa cidade) até ‘sibite baleado’. Entre esses extremos, qualquer outro podia nascer pela criatividade de um moleque que notasse algo pitoresco na minha aparência, jeito ou vocabulário. Era agradável? De modo algum! Especialmente quando o apelido caía sobre mim como uma luva, sendo uma espécie de retrato falado daquele pirralho franzino, tão atraente quanto um amontoado de ossos ambulantes, que não tinha carne para fazer um pastel, como diziam alguns. Eu, que também não era santo, embora passasse essa ideia para alguns adultos, não deixava por menos. Ficava observando os colegas e fazia o meu melhor para lhes dar um bom ‘título’. Nesse tempo não havia bullying, a gente apenas ‘mangava’ uns dos outros. E não adiantava ficar ressentidos, nem procurar os adultos para nos defender. Crianças do passado eram apenas crianças, não pequenos adultos. Ninguém lhes ‘enchia a bola’, nem se sentava para lhes ouvir as lamúrias e reforçar suas manhas. Assim, na falta da bajulação paterna, a gente seguia aprendendo, tornando-se mais resistentes às contrariedades da vida. Mesmo na nossa imaturidade, aprendíamos desde cedo que a vida nem sempre será fácil, que não somos o centro do universo e que as relações sociais nem sempre serão agradáveis.

Quando comparamos o passado com o presente, é óbvio que as crianças já não são as mesmas. O espaço e a influência que possuem hoje eram inimagináveis alguns poucos anos atrás. No passado, os adultos falavam e as crianças ouviam. Em caso de birras, excesso de ira ou tentativas de manipulação, Haia apenas um tratamento: Os pais usavam a técnica milenar da T.A.A.A, ou seja, ‘terapia aplicada no assento da aprendizagem’. O traseiro ficava vermelhinho, e o ego humilhado. Ao contrário dos tempos idos, atualmente, as crianças são bajuladas e adoradas como semideuses. O excesso de mimos, a abundância material e a falta de disciplina fazem-nas pensar que são os seres mais importantes do universo. De maneira ativa e passiva, as crianças estão aprendendo a ter o ego inflado, à medida que são ensinadas a amar a si mesmas acima de tudo. Por isso, são hipersensíveis e não podem suportar a frustração de ouvir um “não”. São adestradas para sempre ouvir “sim” a todas as suas demandas. Em caso de adultos conversando, as crianças tem autoridade suficiente para definir quem tem o poder de falar. Além disso, são consideradas capazes para decidir o que comer e o tipo de brinquedo que os pais devem comprar. Aliás, o poder das crianças tem chegado a tal ponto que os ‘inocentes’ decidem até a igreja aonde a família vai se congregar. E como não? A antropologia moderna não nos ensina que as crianças são doces criaturinhas, moralmente neutras, incapazes de desejar e fazer o mal?

Embora alguns achem que tenho aversão às crianças, porque não as permito agirem soberanamente em momentos solenes, especialmente durante o culto ao SENHOR, a verdade é que tenho problema com adultos permissivos. As crianças são a ‘imagem e semelhança’ dos pais, sem o verniz da civilidade. Quanto aos pais, são produto de um sistema que os domesticou para lutarem e competirem pelos primeiros lugares. Nada lhes deixa mais plenos dos que os holofotes da fama e da produtividade. Querem ser vistos como estando sempre acima da média, sendo servidos e paparicados. Quando alguém lhes contraria ou pisa no seu pé, o primeiro ímpeto é pegar as armas e tirar satisfação. São importantes demais para levar desaforo para casa. Não usam literalmente uma pistola, mas diante de Deus e dentro do coração, são matadores profissionais. Enquanto isso, os filhos os estão observando e recebendo todo estímulo assassino. Como se não bastasse o doutrinamento do mundo, as crianças recebem também o impacto letal de pais mimados. Lamentavelmente, esse é o cenário da nossa sociedade. Por isso, com pesar afirmo: o triste episódio de Goiânia vai ser cada vez mais frequente.

Pais, se por seu exemplo, atitudes e palavras seu filho aprendeu que ele deve viver acima das regras, tendo o mundo aos seus pés, faça-nos, ao menos, um favor. Esconda muito bem as suas armas e, de vez em quando, examine a mochila da criança, para ter certeza de que pistolas, fuzis e revolveres não estão misturados ao material escolar.

 

A serviço do Mestre,

Pr. Jenuan Lira.

 

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